Abandonados. Assim se sentem os moradores do Loteamento Brenner, no Bairro Divina Providência, em Santa Maria. Após o programa Bei nos Bairros Especial ir ao ar na Rádio CDN e na TV Diário, em 15 de junho, a reportagem foi mais uma vez até o local para mostrar os problemas reclamados pela comunidade.
As demandas vão da falta da escritura das casas, passam por problemas de alagamentos e poças de lama e barro nas ruas em dias de chuva, ausência de um posto de saúde e falha na estrutura das casas, que apresentam rachaduras e ameaçam cair. Os problemas estão na ponta da língua dos moradores. De rua em rua, de porta em porta que se vai, todos falam sobre as mesmas precariedades da região.
Morador da Rua Major Bitencourt, Robson Machado do Santos tem uma empresa de mudanças e afirma que deixa de fazer serviços para militares e pessoas que exigem nota fiscal, pois ele não consegue o alvará de localização, já que não tem a escritura da casa e a documentação. Ele afirma que o loteamento não existe no mapa do município.
– Está como se todo o loteamento fosse terreno baldio, um campo. Não aparece casa, não aparece nada. Gastei R$ 100 mil na minha casa. Não só eu, como meu vizinhos gastaram nas casas. A gente não tem as escrituras. Quando a prefeitura chegar aqui e mandar a gente sair, a gente vai ter que sair. Só temos um papel, como vamos contestar? – revela Santos.
Na mesma rua, algumas casas adiante, Felipe Soares também morador do local, fala sobre a falta de uma unidade de saúde e que precisa deixar o bairro para conseguir atendimento médico:
– A gente precisa de um posto de saúde aqui. É muito ruim a localização. Semana passada, meu irmão ficou doente e eu tive que levá-lo na Tancredo Neves.
Ainda na Rua Major Bitencourt a reportagem encontrou o pai de Felipe, Luis Soares, que usa muletas, caminhando com dificuldades pela rua embarrada e cheia de buracos. Em dias de chuva, não é possível sair de casa nem para levar as crianças na aula.
– Olha essas ruas como estão de barro para gente andar. Prometeram passar ônibus aqui e até hoje não passou. É uma vergonha. O prefeito só vem aqui em tempo de eleição. E a gente fica aqui, atirado que nem porco no barro. Isso daqui é uma vergonha. Todo mundo promete e ninguém faz nada – reclama.
A técnica de enfermagem Adriana da Silva diz que teve que mudar a rotina para sair de casa. Ela veste uniforme branco, mas não consegue chegar ao trabalho com a roupa limpa.
– Ultimamente, tenho que sair com roupa normal e levar o uniforme na bolsa, porque não tem condições de sair de branco daqui. Quando a gente chama um carro de aplicativo e eles veem que é aqui, acabam cancelando a corrida. Um dos motoristas me disse que é melhor perder uma corrida de R$ 10 do que pagar R$ 30 ou R$ 40 para lavar o carro. A alternativa é colocar uma sacolinha nos pés e ir à luta – desabafa Adriana.
Pedidos
O presidente da Associação Comunitária do Loteamento Brenner, Márcio Fernandes, diz que em 11 anos não é feita nenhuma benfeitoria no local.
– É muito triste aqui. Os moradores vivem uma realidade diferente de qualquer lugar. Onze anos e não foi feito nenhum investimento, a dificuldade de locomoção é grande aqui. Não tem o transporte público, nós estamos totalmente abandonados. As pessoas vivem que nem porcos. É muita lama, é muita chuva. Imaginem uma mãe com um carrinho de bebê ou um cadeirante. É muito triste. A gente pede para o gestor público e os políticos desta cidade terem um pouco mais de sensibilidade com os moradores daqui – desabafa Fernandes.
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Secretário diz que venda de casas prejudica a regularização
No programa de estreia do Bei nos Bairros Especial, em 15 de junho, a prefeitura foi convidada, mas não mandou representante para debater as demandas do Loteamento Brenner. Agora, após novo pedido da reportagem, o secretário adjunto de Habitação e Regularização Fundiária, Wagner Bitencourt, comentou sobre alguns pedidos dos moradores.
Segundo ele, a inclusão da linha de ônibus, por exemplo, já foi exigida pela prefeitura. Sobre a regularização das casas, o processo seria prejudicado porque alguns moradores venderam seus imóveis, o que não seria legal.
O loteamento público foi construído em 2011, pela prefeitura, para atender famílias em vulnerabilidade social.
– O loteamento foi pensado, foi planejado, licitado e executado tal qual. As pessoas falam que não têm reboco nas casas. Sim, não tem reboco, porque foi planejado sem reboco. Falam que não tem asfalto, sim, pois foi planejado sem asfalto. Quando se é gestor e se tem uma quantidade considerável de recursos para investir, ou eu construo 100 casas, ou eu construo 386. Esse projeto foi pensado na gestão de outro prefeito. O problema era construir o maior número de habitações e assim a prefeitura da época pensou em resolver a demanda habitacional do município. Outro problema é que uma pessoa que foi beneficiada resolve em certo momento vender a casa e isso acaba trazendo um certo problema para nós – afirma o secretário Bitencourt.
Rachaduras nas paredes preocupam moradora
Outra situação muito reclamada por moradores, são as condições de algumas casas, que apresentam rachaduras e que as paredes estão praticamente caindo. Foi o que a reportagem encontrou na casa da Tainara de Avila e de um vizinho. Tainara mora com o companheiro e duas crianças e teme pela vida todos os dias.
– A prefeitura já esteve aqui, tiraram fotos tudo. Eu comprei as janelas novas, mas eu não posso mexer, porque se eu mexer na minha parte da casa, cai a do vizinho também porque há uma rachadura de fora a fora nas duas casas.
Segundo ela, a janela já está quase caindo.
– Eles (a prefeitura) disseram que eu tenho que esperar para ver quem vai se responsabilizar, ou a prefeitura, ou o banco ou a empresa – relata Tainara.
Maurício Barbosa, [email protected]
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